Ter o direito de usar o cabelo como e quando quiser, por simples opção e não mais porque a sociedade quer ou não assim! Essa é a mudança que vem ocorrendo entre o povo brasileiro, especialmente pela comunidade negra e seu público feminino, que já não se sente mais na obrigação em ter que alisar os cabelos, dando espaço agora para os cachos. Entretanto, a mudança é muito mais profunda do que pode representar um tipo de penteado. O novo comportamento implica na retomada da autoestima e da aceitação.

A auxiliar administrativo Evellyn Loureiro de Souza Silva, de 29 anos, e mãe de uma menina de 2 anos, disse ter ficado “escrava” dos alisamentos por quase duas décadas, dos 8 aos 27 anos de idade, e atribui a isso à sensação, ainda criança e adolescente, de não ser bem aceita pelos colegas de escola, com o estigma de que somente as meninas branquinhas eram consideradas lindas. Mas apesar de ter sofrido “bullying” na infância, no ambiente escolar, Evellyn admite que o sentimento de não ser aceita socialmente partia também dela, mesmo que fosse de uma forma inconsciente, pois ao mesmo tempo em que já não mais se sentia inferior diante de ninguém, também não se permitia nem a ir no supermercado do bairro sem antes ter feito escova: “com o cabelo liso eu me aceitava, e tinha prazer de fazer escova, independente do horário”, afirma.

Entretanto, há exatamente dois anos, Evellyn se libertou dessa necessidade. Após sair do banho e ainda estar com o cabelo em desalinho, a auxiliar administrativo olhou para o berço da filha e recebeu um belo e contagiante sorriso. Naquele momento, imediatamente lhe veio à cabeça o pensamento de que “se eu não gostar de mim, como vou passar pra ela que o cabelo dela é bonito do jeito que é? Minha felicidade agora não depende do cabelo estar liso”, festeja.

Situação semelhante à da Evellyn é a da auxiliar financeiro Fernanda Francielly Santana, de 25 anos, que, a partir dos 15 anos de idade passou oito anos usando química para tirar o efeito cacheado do seu cabelo. Ela explica que seu objetivo era apenas o de manter o cabelo liso por achar mais prático para lidar no dia a dia. Porém, a manutenção constante, com retoques a cada três meses, o alto custo, fizeram com que ela repensasse seu conceito e aderisse ao cabelo natural.

Paciência

Tanto Evellyn Silva, como Fernanda Santana, afirmam que “paciência” é a chave para o sucesso de quem deseja fazer a transição capilar, que dependendo do tipo de cabelo pode durar meses seguidos.

Para suportar a raiz crespa e o comprimento alisado, a saída, conforme ensina Evellyn, é fazer escova, mas sem química. Depois de um tempo, com a parte crespa já mais crescida, é o momento de cortar o cabelo, tirando a parte alisada. No início do corte, no estilo chanel curto, a auxiliar administrativo disse ter ficado chocada, mas que depois amou. Atualmente, ela diz fazer escova quando lhe dá vontade, assim como qualquer outra mulher que um dia quer o cabelo liso e no outro o prefere com ondas.

A auxiliar financeiro levou um ano e meio até poder cortar o cabelo, retirando toda aquela parte cheia de química. Mas até aquele momento, fazia escova natural para uniformizar a raiz com o restante do cabelo. Hoje, Fernanda se diz mais feliz por ter unido o útil ao agradável, que é poder exibir os cachos que ela sempre gostou, e sem precisar gastar muito.

Projeto estimula que pessoas assumam o próprio cabelo

“Meu objetivo é fazer com que cada pessoa use o cabelo como quiser, liso ou crespo, mas que seja por opção e não pelo o que os outros pensam.” A afirmação é da cabeleireira e produtora cultural Tarsila Alves Lima Toti, criadora do Projeto Raiz Crespa, lançado em 2013 exatamente para contribuir com o empoderamento das pessoas em geral, passando pelo quesito cabelo. E o lançamento do projeto não foi à toa, acontecendo exatamente quando ela própria, aos 38 anos de idade e há 30 fazendo alisamento, se deu conta de que deveria assumir a naturalidade dos seus cachos.

Tarsila conta que alisava o cabelo por ouvir sua mãe, a costureira Maria Brandina Alves Lima Barrada, de 69 anos, dizer que seu cabelo era duro, e difícil de tratar. Para ela, nessa atitude ás vezes pode estar inserido um preconceito embutido no negro, e que o certo, ao seu ver, seria dizer que o cabelo é crespo e que pode ser tratado. Tarsila Toti entende que “é preciso resgatar as memórias de nossas raízes, Deus nos deu cabelos assim, basta saber domá-los.”

A partir dessa consciência a cabeleireira e produtora cultural passou também a pesquisar produtos cosméticos para soltar os cachos, e afirma que hoje as marcas que antes só investiam em produtos para alisamento, já oferecem também opções para a manutenção do cabelo crespo. Além disso, a manutenção do crespo sai mais em conta financeiramente falando, além do fato de que deixará de utilizar química.

A criadora do projeto Raiz Crespa explica que nem sempre as mulheres queriam alisar por não se sentirem aceitas pela sociedade, mas por não saberem cuidar. Outras porém, como uma sobrinha, que desistiu de emprego numa loja num shopping em São Paulo exatamente porque a queriam de cabelo liso, já tinham noção de que elas são o que são e não teriam porque mudar.

E o Raiz Crespa prega exatamente isso: cada pessoa pode e deve usar o cabelo como quiser, mas desde que esteja de acordo com suas convicções. E nas duas apresentações do projeto em 2015, no Mercado Distrital, em Sorocaba, e no Aquário Cultural, em Votorantim, a cabeleireira ensinou como manter os cabelos cacheados, e até mesmo a fazer as amarrações de turbantes, que inclusive ela doava para os participantes, bem como bijuterias, sempre de forma gratuita. Tarsila espera em agosto próximo fazer nova edição do Projeto, mas que para isso necessita de parceiros para poder adquirir os tecidos dos turbantes e as bijuterias, já que o evento é totalmente sem custo para as pessoas. Ela inclusive diz não se preocupar em ensinar como tratar o cabelo crespo e por conta disso reduzir a clientela, pois acredita que “quanto mais nos doamos, mas recebemos recompensas”.

Histórias de aceitação

No decorrer desses cinco anos, ela já viu muita história de pessoas que se assumiram, como a de uma mãe que ao alisar o próprio cabelo ouviu a filha, criança, dizer que queria ser loira como ela, ou seja, a menina entendia que ser loira era ter cabelo liso. Outro caso foi uma diretora de uma escola que, ao se preparar para as possíveis situações até mesmo de bullying, ligou e falou que cortaria toda parte alisada.

Diante desses casos, Tarsila defende que a conscientização deve começar já na casa, mas pondera que todo mundo tem o direito de usar o cabelo na forma que mais apreciar, desde que seja para agradar a si, e não aos outros. Durante esses anos de trabalho, Tarsila viu inclusive sua mãe optar pelo cabelo natural. “Faz menos de dois anos que cortei para tirar toda química, e depois disso aprendi a fazer até selfie”, festeja Maria Brandini, que acrescenta que o cabelo parou de cair, e que reconhece ter resgatado sua autoestima após esse processo. Tarsila diz que a retomada pelo crespo natural atinge também os homens, que já usaram black power, dreads, e estão retornando ao tipo black power.

Transição capilar

Tarsila destaca que o processo da transição capilar nem sempre é muito rápido, e que é preciso ter paciência. Por entender que a mulher é apegada ao comprimento do cabelo, ela sugere que se faça escovas com o secador até checar num ponto em que a parte alisada possa ser cortada. Outra dica é fazer trança, que a própria Tarsila confessou ter feito porque tinha muito cabelo para fazer escova. O uso de turbantes também dá um aspecto elegante e jovial. Um modo fácil de usá-lo é transpassando o tecido e sobre a cabeça dar dois nós, e, o tecido que sobrar fica escondido sob o cabelo.

Retomar os cabelos crespos é assumir o que é natural

A retomada pelo cabelo crespo não é apenas de deixar de alisar o cabelo e sim, assumir o que é natural. A avaliação é da psicóloga clínica Lélia Emika Eto, que atenta para um resgate e uma construção da autoestima, a partir do momento em que se abandona a constante procura de corrigir aquilo que as mulheres de cabelos crespos foram levadas a acreditar que era um defeito.
A psicóloga explica que a autoestima é algo construído desde a infância, e reforça que uma criança que está começando a se descobrir e a perceber as outras pessoas ao seu redor, na busca de uma identificação social e cultural, ao se deparar com seus semelhantes, deve se sentir valorizada. Mas reconhece que isso não poderia ocorrer se as pessoas com quem ela se parece negar o que é natural, escondendo ou modificando algo próprio de sua natureza. Nesse sentido, uma mãe que tem cabelo crespo e se orgulha disso, a criança também desenvolverá orgulho dos cabelos que possui, como também, se ela ver uma propaganda e perceber que a sociedade respeita as características naturais das quais ela se identifica, então essa criança perceberá que é aceita como é.

Lélia Eto atenta ainda para a importância do resgate da autoestima, por ela ter um papel fundamental na formação da personalidade de um indivíduo, e isso fará toda a diferença para que ela consiga uma afirmação positiva na sociedade, já o contrário, em casos extremos, pode se tornar algo incapacitante.

Entretanto, a psicóloga também lembra que cada mulher tem seus motivos para alisar o cabelo, e que seria inviável criticar aquelas que optam por continuar alisando, mas é importante que as mulheres que escolhem modificar algo que é natural delas se questionem e reflitam se realmente estão fazendo isso por si mesma ou por uma imposição social.

Por outro lado, Lélia Eto diz que é preciso considerar que muitas partiam para mudança do que é natural pela pressão quem sentiam da sociedade, que vê no modelo europeu a imagem da mulher perfeita e aceita, sem se esquecer de inúmeros casos em que de fato as mulheres de cabelos crespos, principalmente, as negras, sofreram injustiças sociais, inclusive dentro do mercado de trabalho. E, segundo ela, a sociedade tem se mostrado menos preconceituosa, mas que ainda falta muito para o ideal, pois a maioria esconde o que realmente pensa ou sente quando o assunto é polêmico. Segundo ela, “às vezes o preconceito está tão enraizado que o próprio preconceituoso não se reconhece como tal, além disso, é inegável que o preconceito continua agindo de forma sutil e disfarçado, dificultando o seu combate”, atenta.

Mas a psicóloga afirma que não se deve culpar a mãe que alisa o cabelo enquanto fala para a filha que o dela é lindo na forma natural, porque é preciso considerar que essa mãe também foi criada em um espaço e tempo que não lhe possibilitou a construção de uma autoimagem positiva. Assim, conforme ressalta a psicóloga, “é de suma importância que sejam desenvolvidas políticas públicas combatendo todo e qualquer tipo de preconceito, é necessário que haja uma profunda reformulação na educação em nosso País, inclusive, promovendo debates sobre como as comunicações publicitárias influenciam na construção dessa autoimagem, em estereótipos negativos, preconceitos sociais, enfim, um padrão de beleza a ser alcançado a qualquer custo.”

Momunes

Mais que aceitar o cabelo que tem, o mais importante é a sociedade respeitar a escolha da mulher negra querer ter os cabelos crespos ou lisos, afirma a cordenadora técnica do Movimento das Mulheres Negras de Sorocaba (Momunes), Cláudia Lima.
No seu entendimento, como qualquer outra pessoa, a negra também tem o direito de fazer o que quiser com o cabelo, mas também defende que a escolha seja por seu gosto próprio, e não por questões de imposições sociais.

Fonte: http://www.jornalcruzeiro.com.br/materia/791317/a-hora-e-a-vez-dos-cabelos-crespos-e-cacheados